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A guerra acabou, e agora?

 
Agora começa outra, a chamada luta para construir a Paz, apelidada no jargão técnico de “Peacebuilding”. Contudo e apesar de provocar esperanças, a rara notícia de “fim de uma guerra” deve ser tomada com precaução antes de ser considerada um motivo para festejos e real resolução. 

A mídia internacional relata com certo sensacionalismo o fim de duas décadas de conflito armado no Sri Lanka com a morte do líder guerrilheiro Prabhakaran e o anúncio de deposição das armas Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (Liberation Tigers of Tamil Eelam -LTTE) após uma ofensiva do governo.  

O que acontece quando uma guerra acaba? Começa a era mais sensível onde tem que construir e reconstruir tudo. Na era do liberalismo democrático, os recentes casos demonstram um esforço da comunidade internacional em implementar um plano de ação teórico que a grosso modo se compõem da seguinte forma.

Primeiramente, o esforço humanitário com a ajuda para os mais necessitados com água, comida e abrigo. No caso do Sri Lanka, dados das Nações Unidas estimam que só neste ano de 2009 mais de 6 500 pessoas morreram, 14 000 ficaram feridos e 250 000 estão refugiados. Apesar da grande dificuldade em contabilizar, os dados estatísticos estimam que desde o inicio, o conflito tenha provocado mais de 70 000 mortos numa população de 21 milhões submersos em um quadro de pobreza extrema. Apesar de 26 anos em conflito, as tensões aumentaram em 2005 após as eleições e quebra mútua de acordos de cesse-fogo desde 2003. 

Em seguida vem o grupo desenvolvimentista que após o cesse das hostilidades armadas e a implementação de um acordo de paz, se mobilizarão esforços para o desarmamento e implementação de programas para a construção de um Estado democrático “livre e de direito” mediante eleições “limpas”.

Em terceiro, o foco será para a reforma do setor de segurança, fortalecimento do setor judiciário, acesso à justiça, tratamento dos casos de violações aos direitos humanos, fortalecimento das instituições estatais, desenvolvimento econômico e reformas das políticas públicas para fortalecer a participação de uma “vibrante sociedade civil” nas tomadas de decisões.    

Na prática, o desenho teórico pós-conflito é menos rosáceo. O paradigma pós-conflito de resolução, reconstrução e reintegração (3Rs) é muito mais complexo com uma miscelânea de interesses que travam o processo de integração e desenvolvimento nacional.   Um dos principais erros é justamente tentar implementar as práticas e projetos em cenários pós-conflitos como se fossem remédios para as mesmas doenças.

Por mais similares que sejam os cenários de destruição com milhares de desabrigados e refugiados, as características particulares e sentimentos nacionais devem ser priorizados. Países pós-conflito necessitam de uma aproximação diferenciada e um estudo de caso a caso para evitar a recaída em conflitos cíclicos, algo que acontece com freqüência.  

O caso do Sri Lanka não é diferente. O fim real do conflito não reside na vitoria do governo diante da deposição das armas pelo grupo rebelde LTTE e sim na resolução das origens do conflito. Como em muito outros casos, as origens do conflito armado do antigo Ceilão refletem uma questão de identidade como conseqüência das práticas colonialistas que dividiam os grupos étnicos para melhor reinarem. Após a conquista da independência inglesa em 1948, deixou um recém-estado multiétnico com uma maioria cingalesa budista ou mulçumana e a comunidade tâmil hinduístas ou cristã.

Apesar dos ensaios para corrigir os desequilíbrios coloniais, o grupo tâmil começa a denunciar discriminação por parte cingalesa e a reivindicar um Estado independente mediante a formação de uma milícia armada na década de 70.  

Em outras palavras, a guerra civil parece ter acabado se a foto for analisada sobre a ótica de que os Tigres foram vencidos. Entretanto não significa que o filme das reivindicações tâmeis tenham sido ou sejam vencíveis. Eis a contraposição entre vencer a guerra e ganhar a paz. O fim da guerra não é o resultado da vitória do governo e sim o êxito do Estado mediante uma união e coesão nacional. A resolução do conflito somente será possível pela inserção nacional sem divisões étnico-religiosas.   A hora não é para festejos e sim enorme precaução ao lidar com questões de identidade que estão mais do que nunca sensíveis numa população traumatizada e uma geração perdida. Prova disto é que o anúncio do fim da milícia dividiu a população, visto que se um lado é alegria, por outro representou tristeza para a população tâmil que reivindica, desde sua origem direitos iguais, antes de um Estado independente. 

A guerra civil no Sri Lanka parece que ainda não acabou. De todos os modos, parece ser o início do fim. Se assim for, começa os esforços para a construção de Paz e de fortalecimento estatal. Como todo processo complexo e de longo prazo, necessariamente irá requerer enorme empenho nacional e cooperação internacional. Países como Reino Unido, Noruega, Japão, Estados Unidos e Canadá deverão manter papel forte visto que estiveram envolvidos de um ou outro lado do conflito armado.  

Quem ganha a guerra não deve ser um ou outro grupo étnico-religioso e sim a população civil do Sri Lanka, sendo as principais vitimas, e que agora precisa sobretudo de comida, água, casa, segurança e emprego em meio ao caos.
A guerra pode parecer no final, mas a Paz, no sentido de estado de direito e desenvolvimento ainda permanece num horizonte distante.

As técnicas de “Peacebuilding" necessitarão de grande empenho para uma real resolução do conflito e sustentabilidade da Paz

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Debate

Um "triálogo" virtual sobre Gaza: choque de civilizações ou fim da história?
 
 
Fonte: Agência Fenapef em 
28/01/2009 http://www.fenapef-desenv.org.br/fenapef/noticia/index/19868  



Por: Carlos Eugênio Timo Brito (Londres, Inglaterra)–
George Felipe de Lima Dantas (Brasília, Brasil)–
Izabela Pereira (Dili, Timor Leste)

Sábado à tarde, janeiro de 2009. Numa mesa virtual do bar "World Wide Web", de endereço indefinido, sentam-se três brasileiros. As boas-vindas do garçom são abafadas pelo som de uma televisão de balcão sintonizada no noticiário. Na tela, cenas desagradáveis de uma guerra. Naquele dia, a invasão israelense em Gaza completara uma semana. No dia anterior, o prédio do Parlamento Palestino havia sido destruído pela Força Aérea Israelense. Ainda naquele mesmo dia, seis dezenas de foguetes haviam sido lançados pelo Hamas em direção às cidades israelenses de Ashkelon e Sderot. Resultado: mais um conflito em Gaza, uma das regiões mais explosivas do mundo há muito tempo.

O garçom, tentando ser simpático com os seus recém-chegados clientes, faz um comentário trivial: "Vocês preferem que eu mude para um jogo de futebol?"
Izabela, brasileira radicada em Dili, Timor Leste, apressa-se em dizer "não, não há necessidade", aliviada em perceber opinião semelhante de Felipe. Antes ver um noticiário do que um jogo de futebol. Felipe, confortavelmente assentado em sua cadeira em Brasília, Brasil, emenda: "Esse conflito no Oriente Médio é resultado de uma sucessão de oportunidades de paz desperdiçadas". Izabel balbucia, ao mesmo tempo em que abre o cardápio: "é mesmo, parece uma guerra sem fim... O que você acha, Carlos?" De sua cadeira em Londres, Inglaterra, o estudante dispara, já se esquecendo do jogo proposto pelo garçom: "esse assunto exige uma bebida, de preferência forte..."

Discutir o conflito entre o Hamas e o Estado de Israel requer um esforço excepcional, pois envolve – via de regra – abundância de emoções e escassez de razão. A cada novo anúncio midiático de explosão, destruição, dor, sofrimento e morte, sentimentos poderosos de indignação e repulsa invadem o observador. Essa reação representa, freqüentemente, uma visão cósmica peculiar, quiçá afetiva – e menos cognitiva – do curso dos eventos e do mundo em que vivemos. Diante desse esforço, mostra-se tentadora a busca por teorias que expliquem, de uma só vez, todo o jogo e um complexo tabuleiro de atores e interesses envolvidos no conflito. No cardápio de teóricos já considerados populares, destacam-se Huntington e Fukuyama.

Felipe sugere: "que tal uma boa garrafa da cerveja Huntington?" "O Choque de Civilizações", obra seminal de Samuel Huntington, foi lançado ainda na década de 90. Em síntese, o teor dessa perspectiva sugere que as principais fontes de conflito no mundo pós-guerra fria seriam de natureza cultural, em oposição às contendas de ordem político-econômica que marcaram a maior parte da história da humanidade. Dentre os principais elementos culturais indutores de conflito, o autor destaca a religião e a identidade (nacional?). Uma possível e recorrente leitura do conflito em Gaza, à luz de Huntington, envolve interpretar a guerra como uma sucessão de binômios: ocidente versus oriente, judeus versus islâmicos, democratas versus teocratas, etc.
Carlos, lembrando-se de sua última "ressaca de Huntington", ainda nos tempos de graduação na faculdade, responde sem pensar: "vejo aqui que também temos a cerveja Fukuyama"...

Fukuyama é um contraponto intrigante a Huntington. No seu "O Fim da história e o último homem", o autor propõe que a supremacia do capitalismo, após a Glasnost e a Perestróica, teria interrompido o surgimento das dialéticas que funcionaram como "o motor da história". Daí o seu fim e a consagração do "último homem": um ser humano capitalista, liberal e democrata, figura mesmo do típico "WASP" [White, Anglo-Saxon and Protestant (Branco, Anglo-Saxão e Protestante)], `vencedor` da Guerra Fria. Os eventuais conflitos que surgissem após essa consagração, propõe Fukuyama, representariam apenas uma acomodação de forças ao novo status quo, supostamente permanente. Neste caso, o conflito em Gaza refletiria a saúde do paciente disciplinado ao tratamento capitalista (Israel) em detrimento do esforço do paciente não-capitalista (Hamas), debatendo-se para manter-se vivo.

Izabela, prevendo o impasse na hora do `pedido`, solidária ao garçom que esperava em pé ao seu lado, mui candidamente sugere trazer Huntington mesmo (quiçá como proxy de uma "cerveja virtual" nessa mesa digital...). Faz, contudo, uma ressalva. "Vai depender de como pretendemos usá-lo para tratar da questão `Hamas versus Israel`". Segundo ela, o momento seria perigoso em sua superficialidade de análises, preferências, vieses, enfim, de parcialidades. O terceiro à mesa, mais que rápido, aceitou polidamente a "cerveja virtual Huntington", mas não sem pedir uma "carta de vinhos" em que apontou uma "pluralidade de buquês" sem esquecer um "chateau neo-realista". Bebamos então: in vino veritas!

O que não restaria em dúvida, entretanto, ao brindarem Huntington, seriam a fragilidade e impotência das organizações internacionais e a ineficácia da diplomacia egípcia e européia com relação a palestinos e israelenses. Isso para não citarmos um direito internacional posto de lado e que ainda figura, em 2009 e com o Conselho de Segurança, sob um mesmo signo de impotência vis-à-vis às heranças malditas do imperialismo tratadas no âmbito do Conselho de Tutela, extinto em 1994 após a independência de Palau.

A escolha por Fukuyama poderia ter semelhantes efeitos colaterais limitadores. O calcanhar de Aquiles dessa interpretação seria ignorar as potenciais contendas oriundas do interior do próprio sistema capitalista – e as novas dialéticas que a partir disso poderiam surgir. O fracasso da "Rodada Doha" e a corrente crise dos sub-primes, dizem os críticos de Fukuyama, seriam apenas dois bons exemplos de que a história pode estar apenas começando ou, pelo menos, repetindo a si mesma. A pós-modernidade não provou ser, nesse "fim de linha bucólico" proposto por Fukuyama, uma "droga estupefaciente" fruto da associação de "fármacos existenciais" como ciência, tecnologia, riqueza, liberdade ideológica, política e educação. Huntington talvez nos queira lembrar, ao supostamente contrapor Fukuyama, que possa existir um mundo pós-moderno, dito ocidental – com conotação substantiva e adjetiva valorativa – eventualmente alternativo a um outro mundo, pré-moderno, e que se opõe fundamentalmente àquele outro. Teocracia versus democracia? – E o que seria, exatamente, uma e outra coisa, na "semiótica dura" dessas duas expressões?

 Os acontecimentos em Gaza refletem a complexidade de um conflito que por suas características o tipificaria mesmo como uma "guerra sem fim" (Endless War), tal como dito inicialmente por Izabela. Entretanto, segundo uma visão clássica e apesar do envolvimento coadjuvante de países como EUA, Líbano, Síria e Egito, o conflito armado entre Hamas e Israel não poderia ser classificado, sob a luz do direito internacional público, como uma "guerra" propriamente dita, visto que, neste quadro especifico, não envolve dois ou mais Estados soberanos.

Na abordagem pluralista, os novos conflitos incluem atores não-estatais como o Hamas, Fatah e Hezbollah, atores intra-estatais como o Likud e Kadima, ou até mesmo atores não-classificáveis, porquanto não plenamente identificados, caso das células terroristas surgidas no âmbito da "guerra contra o terror" (as quais certamente têm operado em Gaza). Contudo, pela sua complexidade e durabilidade, tal conflito produz fadiga e exaustão, não apenas acerca dele próprio em suas várias décadas, mas também sobre noções genéricas do que seja justiça, paz, ética e moral.

No caso específico, a percepção de injustiça, em um mundo cada vez mais global em termos de comunicação, expande reflexões e percepções, levando-as a outros teatros de guerras, caso do Sudão e Congo, O efeito macabro da espetacularização midiática da violência, faz com que Gaza seja a `bola da vez`. O "Efeito CNN" impactou e incendeia um contencioso cujo relativismo moral sugere diferentes modelos explicativos em prol da análise e resolução de conflitos internacionais, ao dar mais valor aos escombros de um e menos às pilhas de mortos de outro. É também nesse contexto de conflitos globais que os leigos em relações internacionais especulam sobre soluções mágicas, superficiais e efetivas para a atual crise no Oriente Médio, como se lá estivesse em curso o único contencioso importante no planeta a envolver forças culturais, grupos políticos, mortes, armas de destruição em massa e outras expressões da beligerância humana.

Em outra "mesa virtual" o jornalista Gustavo Chacra, na busca de vencer a superficialidade de análises parciais, sugere que existem diferenças marcantes entre o Hamas e o Hezbollah, ambos contendores "diretos" de Israel, um na Gaza de 2008/2009, o outro no sul do Líbano do início da década de 1980 e em 2006. Entre as diferenças de base, o Hamas é sunita entre uma maioria sunita de palestinos e o Hezbollah é xiita entre vários outros grupos religiosos do Líbano; um é palestino, enquanto o outro libanês; possuem inspirações diferenciadas, o Hamas na Irmandade Muçulmana do Egito, o Hezbollah na Revolução Islâmica do Irã; o Hamas segue empreendendo ataques suicidas em Israel, o Hezbollah valeu-se disso no sul do Líbano, cessando de fazê-lo após a desocupação em 2000; o "poder de fogo" do primeiro é bastante limitado, enquanto o segundo possui meios bélicos capazes de atingir Tel Aviv; o Hamas não tem quadros operativos  da qualidade tático-operacional dos afiliados ao Hezbollah, talvez os mais bem treinados combatentes da comunidade árabe; o primeiro não detém unidade de comando local (Khaled Meshal vive em Damasco), enquanto o Hezbollah é dirigido indisputadamente pelo xeque Hassan Nasreallah; o Hamas enfrenta dificuldades de recursos, enquanto o grupo libanês é apoiado por xiitas libaneses, da África e do golfo pérsico, além do próprio Irã; e finalmente, que o Hamas possa estar fortemente infiltrado por agentes da inteligência israelense, enquanto a contra-inteligência do Hezbollah tenha um poder diferenciado dos palestinos em resistir à conhecida competência israelense na realização de operações do gênero contra seus opositores.
 
Por tudo isso, é preciso compreender que a atual crise em Gaza, como no caso de outros conflitos, é extremamente complexa, oferecendo um vasto leque de metodologias, focos e abordagens com que pode ser analisada e interpretada. A fim de evitar cair em obviedades e simplismos, é necessário ter muito cuidado na busca de sentido no "nonsense" que sempre é a guerra e o conflito armado em geral. A eleição da própria abordagem pode ensejar o predomínio desta ou daquela ideologia, muitas vezes fruto de uma agenda oculta. Por isso, torna-se imprescindível esclarecer sempre qual o foco ou viés, bem como a extensão da análise, no tratamento de um tema de tamanha importância e significado no mundo globalizado de 2009. O ideal, neste caso, seria ter às mãos uma epistemologia e uma ontologia da complexidade, infelizmente ainda inexistente ou inacessível.

Abordar a questão de Gaza buscando explicações da "razão da desrazão", no conflito entre o Hamas e Israel, pressupõe entender não apenas o Hamas, mas também sua relação com o Hezbollah. Isso antes mesmo de contrapor, em análise, Israel versus Palestina, legalidade das causas, direito de existência como Estados soberanos, autodeterminação dos povos, aplicabilidade da resolução das Nações Unidas, historia, nacionalismo, identidade e fanatismo, jogos e assimetrias de poder, estratégia política, anti-semitismo, interdependência, entre outros vieses possíveis.
Mas há uma saída? - A História e a esperança dizem que há, sim. Mas essa saída irá requerer coragem por parte dos tomadores de decisão de ambas as partes, bem como uma interrupção no jogo de vaidades e intolerância dos atores principais e coadjuvantes envolvidos no conflito. A solução passará certamente pela devolução de terras por parte dos israelenses, com a região voltando à configuração geopolítica pré-1967, ano em que os israelenses, em resposta a um ataque conjunto de países árabes, invadiram Gaza pela primeira vez. Por parte dos palestinos, a solução depende de uma moderação do Hamas e do fortalecimento dos setores palestinos também mais tolerantes.

De qualquer forma, o conflito em Gaza proporciona, indubitavelmente, lições importantes para a vida de cada um de nós. Gaza é a concretização, em grande escala, dos conflitos diários que ocorrem entre os mais diversos indivíduos e seus coletivos. Pode-se dizer que Gaza é o resultado de oportunidades desperdiçadas sucessivamente, de um imaturo conflito de vaidades, de uma ingênua indisposição para a solução definitiva de problemas e de uma incapacidade real de perdão. O que começou, há mais de 15 séculos, como uma disputa agrária entre dois povos (israelenses e palestinos) pelo mesmo pedaço de terra, tornou-se hoje uma grave contenda de ordem religiosa e civilizacional. No meio dessa história (literalmente -- história...), reside a influencia do Pan-arabismo de Nasser durante a década de 60. De tal reedição do populismo resultou, entre outras tragédias, a Guerra dos Seis Dias, primeiro acontecimento de grandes proporções do conflito atual.
Curiosamente, Gaza representa mais um episódio de um conflito entre as duas das religiões monoteístas mais antigas da humanidade. Trata-se, portanto, de uma clara comprovação de que experiência ou antiguidade nem sempre significa moderação e ponderação, tampouco sabedoria. Ou seja, ao invés de um "choque de civilizações", poderíamos estar a presenciar um "diálogo (saudável) entre civilizações", caso o problema não tivesse escalado para proporções tão assustadoras.

Contemplando o que possam representar expressões como palestinos e israelenses ou islâmicos e judeus, existirá sempre alguém cuja identidade maior será com a própria raça humana. Nessa igualdade universal entre os homens, será sempre considerado que todo conflito, como é o caso em Gaza, deva ser, sempre e cada vez mais, analisado racionalmente, com o objetivo de encontrar um desfecho viável, satisfatório às necessidades das partes e cuja resolução seja implementada rapidamente e de maneira eficaz.

Mesmo assim, uma única teoria será sempre insuficiente para interpretar um contencioso com tal complexidade, da mesma forma que nunca existirá um único Shakespeare que represente, em tragédias "encenadas", todo o rol de tragédias "reais" vividas pela humanidade.

(1) Doutorando em Justiça Criminal e Relações Internacionais pela
Universidade de Westminster, Londres, Reino Unido (em curso); Mestre em Ciências em Justiça Criminal pela "The London School of Economics", Londres, Reino Unido; Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.
(2) Doutor em Educação pela The George Washington University, Washington, D.C, Estados Unidos da América (EUA), com concentração de estudos em Políticas Públicas, Análise e Resolução de Conflitos (George Mason University, Fairfax, Virginia, EUA) e Justiça Criminal. Mestre em Educação pela The George Washington University.
(3) Mestre em Estudos da Paz e Resolução de Conflitos pela Universidad del Salvador, Argentina; Especialista em Ciência Política e Economia; Diretora internacional da INTERPATRIS Consultoria em Relações Internacionais.

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Conflitos em perspectivas: o retrovisor de 2008e a luneta de 2009
 

IzabelaPereira
Publicado em 03/01/09
 

Alguém aí lembra que 2008 começou com uma ondede violência no Quênia após acusações de fraude nas eleições presidenciais,cujas tensões políticas e étnicas  desencadearamnuma onda de violência com mais de 800 mortos e centenas de refugiadosinternos? Anonovo, país novo.

Ainda em fevereiro Kosovo declarou unilateralmente aindependência da Sérvia. Cuba já não mais seria a mesma com a renúncia de FidelCastro à presidência do Conselho de Estado e de comandante-em-chefe das ForcasArmadas após 49 anos no poder. Do outro lado do mundo, Timor-Leste quaseadentra em uma nova crise com o atentado que quase matou o presidenteRamos-Horta. Em1° de março, a América do Sul mostrou que também é uma região instável e quecaminha lentamente rumo à integração regional. A crise diplomática andina seiniciou com a acusação de que Exército colombiano adentrou em territórioequatoriano em que cuja operação matou, Raúl Reyes, o número 2 das Forças ArmadasRevolucionárias da Colômbia-FARC. As tensões entre Colômbia, Equador eVenezuela se equilibraram com a mediação do Grupo do Rio e da Organização dosEstados Americanos –OEA com um pedido de desculpas sem-graça.

Enquanto a China preparava os últimos acertospara sediar as Olimpíadas em agosto, um terremoto deixou mais de 70.000 mortose 10 milhões de afetados na região central.

Astensões também estavam em chamas e com resultados desastrosos com a Guerra doCáucaso. O conflito se alastrava desde a década de 90 com colapso da UniãoSoviética e o nascimento de movimentos separatistas da Ossétia da Sul e daAbkházia. A invasão da Ossétia da Sul pela Geórgia e a incursão russa deixaramum balanço desastroso de mais de 1.500 mortos e centenas de feridos.

Como se fora pouco, após um período de tréguaentre janeiro e agosto de 2008, o Exército congolês se enfrentoucom rebeldes da etnia tutsi. Além da emergência humanitária que obrigou amais de 200 mil pessoas a deixaram suas casas entre atrozes atos de violência,o conflito ameaça se desdobrar em uma guerra mais ampla. Apelidada de ‘GuerraMundial da África', o conflito se alastra desde as crises em Uganda, Ruanda eBurundi além de Angola, Zimbábue e Namíbia. Desde o Natal 2008, rebeldes deUganda são acusados de matar mais de 400 pessoas no nordeste da RepúblicaDemocrática do Congo. 

A lista é longa. Darfur, Afeganistão e Iraqueparecem entrar sob a catalogação das “guerras sem fim” em que o exaustivobombardeio da mídia igualmente influencia na escalada de tensões dos conflitos.2008 foi um ano cujo codinome deveria ser“crise”. Entre crises diplomáticas, crises políticas internas, o temor globalfoi com as crises alimentícias e sobre tudo a crise financeira que abalou a (des)ordemeconômica do livre mercado de capitais e especulações. Sem outro modeloalternativo, tudo parece retomar seu ciclo vicioso. 

Os 12 meses pareciam chegar ao fim num últimosuspiro. Mas antes, um ataque terrorista em Mumbai deixou 195 mortos e drasticamentearrefeceu as relações indiano-paquistanesas. E na Tailândia, a crise políticaescalou gravemente bem como na Nigéria e Nicarágua. 

No Oriente Médio, a paz e a resolução deconflito continuam sem espaço na complexa trama de interesses. Com uma declaraçãode guerra aberta em resposta às ofensivas do movimento palestino Hamas, Israellança a maior ofensiva militar desde 1967 com mais de 450 mortos em 8 dias deconfronto.

Eisum quadro negro. O mundo em eterno conflito que não caberiam neste breve teste deretrovisor dos acontecimentos internacionais em 2008. Contudo, também houve umacerta esperança de paz, como na libertação de Clara Rojas, Ingrid Betancourt eoutros reféns das mãos das FARCs. Igualmente, brotou esperança em justiça aindaque tremendamente lenta com a prisão e entrega à justiça internacional de RadovanKaradzic; um dos homens mais procurados do mundo, indiciado pelo genocídio de 8mil muçulmanos em Srebrenica e 10 mil mortos durante a guerra na ex-Iugosláviaentre 1992-95.  

Ainda que diversas eleições e referendos ocorrerammundo afora e igualmente geraram distúrbios como no Zimbábue, Paraguai eBolívia, as esperanças por alguma mudança foi representada pela corridapresidencial à Casa Branca Americana e a eleição de Barrack Hussein Obama. 

Com tantos acontecimentos, era mesmo hora definalizar 2008. Até piratas ameaçaram a (des) ordem mundial.

Na perspectiva daluneta para o ano de 2009, não há expectativas para eventos muito diferentes.Guerras e alguns desastres aqui e acolá também ocorrerão no tradicionalmovimento cíclico de ano após ano.

Segundo a CrisisWatch, 69 conflitos continuam sem perspectivas de resolução.Além dos usuais riscos no Iraque, Afeganistão, Israel e Territórios ocupado daAutoridade Palestina, especial atenção deve ser dada para o Congo, Sri Lanka, Bangladeshe Sudão. 

Todo esse quadro não deve ser desalentador esim um chamado a simples realidade: a necessidade de arregaçar as mangas, poishá muito para se fazer além do seu quintal.

O mundo é dinâmico e as relaçõesinternacionais são cada vez mais complexas e desafiantes. Sem espaço paraidealismos e com os resultados demonstrados no retrovisor de 2008, a luneta de2009 também relembra a necessidade do professional de relações internacionaisno seu vasto espectro de atuação. 

2009, já começa tarde. Mãos à obra e muito boa sorte.

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Timor- Leste:   

Como é um país de 6 anos de idade?
 

Assim como uma criança, consegue andar, porém vai à escola com muito dever de casa por fazer e sem discernimento própriosobre qual destino seguir. Eis o quadro do Timor-Leste. 

Visite o artigo em "Democracia". 


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Índia: a nova arena do terrorismo internacional

Apesar de não ser algo estranho à Índia e à Mumbai, os atentados de novembro de 2008 impressionam pela organização e mostram uma mudança nos métodos e escalas precedentes. O já considerado 11 de setembro indiano foi uma ação bem planejada e bem orquestrada, juntando táticas de guerrilha e de terrorismo com ataques sincronizados a pontos importantes da capital financeira indiana.

As informações de que os terroristas buscavam especialmente possuidores de passaportes britânicos, israelenses e americanos mostra que estão ligados a grupos radicais islâmicos, alguns elementos operacionais também mostram que podem ter sidos inspirados e influenciados por grupos externos mais importantes como a Al Qaeda.

O desconhecido grupo Deccan Mujahadeen, que se refere ao planalto do Decão, região que conforma a maior parte do centro e sul do país, assumiu a responsabilidade dos ataques. Por não ter a capacidade operacional necessária acredita-se que além da própria Al Qaeda, o grupo pode ser afiliado ou ter ligações com pelo menos dois conhecidos grupos indicados como responsáveis por atentados no passado: o Indian Mujahadeen e o Lashkar-e-Tayyiba. O primeiro declarou guerra aberta à Índia como retaliação pelo que é entendido como 60 anos de perseguição aos muçulmanos no território e ao apoio dado as políticas norte americanas. O segundo, assim como uma dezena de outros, operam desde o norte do Paquistão e da Kashmira paquistanesa e têm como meta lutar pela soberania de Jammu e Kashmira e direcionar seu controle ao Paquistão.

É sabido que há uma ligação entre vários grupos que lutam contra a Índia, pois freqüentam os mesmos campos de treinamento islâmicos e por compartilharem os mesmos fins. Como anteriormente os responsáveis pelos atentados terroristas ou eram suicidas ou deixavam o artefato e desapareciam, as agências de inteligência tinham dificuldade de descobrir suas reais ligações. Com a informação de que vários suspeitos foram detidos se saberá se foi um ato isolado de um grupo de menor expressão como o Deccan Mujahadeen ou um plano arquitetado por um grupo mais bem estruturado como o Al Qaeda ou Lashkar-e-Tayyiba. Ultimamente, parece que a Índia se tornou o grande teatro de operações do terrorismo internacional. Com o aumento da segurança e do controle das fronteiras na Europa e Estados Unidos grupos terroristas vêm se aproveitando da vulnerabilidade indiana por problemas como: dimensão e difícil controle de fronteiras, volatilidades econômicas e sociais e de violência cultural.  A Índia por estar envolvida em um grande número de conflitos de baixa intensidade dentro do seu território sempre foi um alvo em potencial e muitos dos recentes atentados são um produto desses conflitos.

O país depara-se com a maior onda de terrorismo de sua história, no último ano só esta atrás no número de vitimas para o Iraque. Apesar de também serem perpetuados por hindus e outros grupos a grande maioria dos atentados anteriores são indicados como responsabilidade de grupos islâmicos. A rivalidade entre hindus e muçulmanos nasceu do resultado da divisão do subcontinente em Índia, Paquistão e Bangladesh. Já havia um rancor por parte dos hindus pelos séculos de dominação muçulmana, mas a partição levou a uma luta sectária em larga escala e ao inicio de um histórico de violência comunitária esporádica.  Esses conflitos também são o resultado do crescimento do nacionalismo hindu e do extremismo muçulmano presentes em certas camadas da população. Questões como a destruição da mesquita de Ayodhya por nacionalistas hindus e os distúrbios no Estado de Gujarat, onde em 2002 mais de duas mil pessoas morreram no confronto entre hindus e muçulmanos mostram a sensível relação entre as comunidades. 

 A questão da Cashmira, que já levou Índia e Paquistão a duas guerras, segue sendo uma fonte de hostilidade entre as duas comunidades. Sob a perspectiva do Paquistão a partição de 1947 acordada em bases religiosas estará incompleta até que a região de maioria muçulmana se una a seu território. A Índia já acusou o Paquistão de financiar e dar guarita a grupos terroristas islâmicos e apesar da relação ter se estreitado nos últimos anos teme-se que o ataque a Mumbai leve a uma nova tensão entre os dois países. Sob o ponto de vista indiano, a região pertence legalmente ao seu território, pois o governante local na época da divisão assinou formalmente o tratado de acesso, além disso, há um temor de que uma separação da Cashmira possa fomentar movimentos separatistas em território indiano e que possa aumentar a violência entre as comunidades. A Índia também é alvo de outros grupos terroristas, movimentos insurgentes de esquerda como os maoístas naxalistas representam um perigo para a segurança nacional. Apesar de estarem localizados principalmente em Andhra Pradesh outros Estados vêm presenciando o aumento de suas atividades.

Impulsionados pelo sucesso alcançado pelos maoístas no Nepal o grupo vêm operando e ganhando reconhecimento em regiões rurais empobrecidas indianas, onde o governo falha em direcionar os recursos do recente boom econômico. Para as agências de inteligência indiana as ações dos naxalistas vêm crescendo em sofisticação e letalidade e a questão vai representar um desafio em longo prazo para o Estado. Outra fonte de instabilidade para o governo indiano são os Estados do nordeste indiano, principalmente Assam e Nagaland. Ambos vêm recebendo nos últimos anos um grande fluxo de emigrantes, principalmente muçulmanos do vizinho Bangladesh. O deslocamento demográfico em uma área já propensa a fricção tribal ajudou a desencadear uma série de conflitos religiosos e culturais.

A pobreza na região é endêmica e muitos grupos demandam independência, citando negligência e descriminação por parte do governo como base para a separação. Grupos militantes como a Força Unida de Libertação de Assam têm visado políticos e a infra-estrutura do Estado como alvos de ataques na tentativa de conseguir alguma influência do governo. Parece claro que os atentados visando pontos simbólicos da capital financeira indiana e tendo como alvos principalmente estrangeiros têm como meta afetar o crescente interesse econômico e turístico do país.

Os atentados acontecem no momento de eleições locais, inclusive na disputada Cashmira e precedem as eleições nacionais de maio de 2009. Existe a preocupação de que uma desestabilização do Estado possa levar a um regresso do partido de direita BJP ao poder e um aumento do nacionalismo hindu gerando mais violência sectária. Também existe a preocupação de uma desestabilização da região. Se a Índia identificar os culpados como um grupo doméstico, o governo será culpado por uma falha de enormes proporções em garantir a segurança e o poder da lei. Identificando os culpados como grupos sediados no vizinho Paquistão, algo que pela atmosfera de crise fortaleceria a posição interna do governo, levaria a uma tensão entre os dois países e intensificação da pressão para o governo paquistanês agir decisivamente contra insurgentes islâmicos. Tal pressão pode afetar a estabilidade do país, com o governo estagnado entre pressões externas e realidades domésticas.

O Paquistão têm experimentado nas ultimas três décadas problemas estruturais como corrupção e declínio dos serviços públicos, isso tem levado extremistas religiosos a desempenhar um crescente papel em prover educação e outros serviços aos mais pobres, gerando uma radicalização em certas áreas do país. Os ataques mostram a dificuldade de Estados democráticos em lidarem com o terrorismo sem tomar medidas de segurança draconianas e uma poderosa agência de inteligência, a troca da liberdade por segurança colocará a prova os princípios da maior democracia do mundo.

Um mosaico étnico, lar do budismo e dos ideais de não violência e onde mesmo como uma minoria, possui a segunda maior população muçulmana do mundo, a Índia se depara com o enorme preço a pagar e o desafio de ser a nova arena do terrorismo internacional.  

Thiago Wolfer
Consultor
Forcas de Paz Não Violentas                    

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